Sexta-feira, Março 27, 2009

Imigração

http://www.youtube.com/watch?v=O7mKAJTg0yg&NR=1

Na trilha aberta por Manu Chao, o Che Sudaka canta uma Europa que as autoridades preferiam que não existisse.

Domingo, Março 01, 2009

Logradouros e nomes de família

Uma das torturas de se chamar Graciliano é ter de responder à pergunta inevitável – É Ramos? – quase toda vez que sou apresentado a alguém. O interlocutor, normalmente bem-intencionado, acha que está sendo original porque não tem obrigação de saber que ouço o gracejo desde a infância. De boa intenção o inferno está cheio.

De certa maneira, sou produto genético de uma mistura ideológica familiar tão peculiar quanto um prato de farofa com pêssego em calda. A saga das duas famílias, a materna comunista e a paterna de direita, se desdobrou no aprazível Acaraú, município litorâneo do norte do Ceará, sustentado pela pesca de lagostas graúdas.

O vermelho do Partidão só encontrou equivalente nas emoções do meu avô Edílson Rocha no alvinegro corintiano. A municipalidade decidiu homenagear-lhe a paixão pelo futebol, não as preferências políticas, após sua morte, em 1991. O estádio da cidade leva o seu nome.

Duas das ruas que ladeiam o estádio, entretanto, homenageiam parentes do meu pai: o coronel Duca da Silveira e o Major Bião da Silveira. Não, nunca foram militares de carreira, mas chefes políticos locais.

Os Silveira sempre foram contidos na hora de batizar as crianças. Profetas judeus e santos católicos predominam: há uma profusão de Joões, Carlos, Franciscos, Elias etc. A maior ousadia foi um Roberto Carlos, que por sinal entrou na justiça para deixar de ser xará do cantor. Chama-se agora Roberto Válter, o que também é um pouco esquisito.

Entre os Rocha, não. Há uma queda por homenagear intelectuais, particularmente os de esquerda. Além do Graciliano, notório comunista, minha irmã é Gabriela por causa do romance do Jorge Amado, outro simpatizante do Partidão.

Nada que se compare ao mais esquerdizante de todos, meu tio Dodô, militante do PC do B. Seu primeiro filho chama-se Che Neruda – numa improvável mistura do ícone da Revolução Cubana com o grande poeta chileno.

Ele queria porque queria que o segundo rebento chamasse Fidel, mas a mulher dele se opôs firmemente. Abriu uma concessão parcial à minha tia: o menino chama-se Gabriel (como queria a mãe), mas o tio salpicou-lhe um Lênin logo em seguida na certidão de nascimento. Gabriel Lênin, isso aí.

Na terceira gravidez, Isabel, a tia, não permitiu ingerência. A menina chama-se Vitória e isso já suscitou especulações de toda ordem na família: teria sido uma vitória pessoal da própria Isabel, que anulou tenazmente a fúria homenageadora do meu tio? Ou uma vitória do próprio capitalismo já que ela nasceu depois da queda do Muro de Berlim?

Entre os Rocha, há um tio Gutenberg e um primo Vitor Hugo, homenagem ao escritor francês que, se comunista não era, faz a delícia dos engajados ao retratar magistralmente a vida do povo francês em “Os Miseráveis”.

E dê-lhe ironia: Vitor Hugo é dentista, o Gutenberg é médico, o Che é administrador de empresas.

A tradição caprichosa da família não poupou nem os cachorros. Todas as cadelas do meu avô chamaram-se Laika, deferência inequívoca à célebre cachorra que precedeu o cosmonauta Yuri Gagarin na aventura espacial soviética.

Até que não posso me queixar da sorte.