Segunda-feira, Fevereiro 16, 2009

Nina



Há nos olhos de Marina Rahe um elogio ao indizível.

EDITADO EM 21/FEV:

Um pouco mais sobre a Nina Rahe, segundo João Gabriel de Lima, diretor de Redação da revista Bravo!

O perfil está para o jornalista assim como o retrato está para o pintor, os prelúdios de Bach para o pianista e o jogo de pernas para o boxeador. É a base que fundamenta toda a técnica - mas só depois de anos de domínio da técnica é possível executar com perfeição o fundamento. O perfil é uma reportagem centrada num único personagem. Foi a revista americana The New Yorker - berço do chamado jornalismo literário nos anos 30 e 40 - que estabeleceu as bases do estilo, e o atual diretor da publicação, David Remnick, é o hoje o mais prolífico autor de perfis da imprensa americana. No prefácio de uma coletânea de textos de Remnick, Dentro da Floresta, o jornalista e cineasta João Moreira Salles, editor da revista piauí, assim definiu o gênero: "É uma alternância entre a observação miúda e a análise geral, entre o pequeno e o grande".

Na área cultural, o perfil se reveste de uma peculiaridade. Além de contrapor o geral e o particular, ele carrega o desafio de retratar o artista em seu momento de criação - e por isso exige uma sensibilidade especial do repórter. Alguns dos destaques desta edição (fev.09) são perfis de artistas. A jornalista mato-grossense Nina Rahe teve a idéia de acompanhar o processo de criação de Antunes Filho na época em que fazia um curso de pós graduação em jornalismo literário. Seu trabalho, que pode ser lido a partir da página 86, se enquadra perfeitamente na definição de João Moreira Salles. A partir de um dado miúdo, aparentemente prosaico, anedoticamente paradoxal - o fato do diretor não saber dirigir carros - Nina radiografa a mente de um artista que gosta de ter idéias enquanto passeia a pé pela cidade de São Paulo (...)


Depois de clicar aqui e ler a matéria dela sobre o dramaturgo, você vai perceber que o elogio do diretor da revista é bastante justo.

Domingo, Fevereiro 15, 2009

Rourke

Admiro o Mickey Rourke, desde "Orquídea Selvagem" (Wild Orchid). Foi o primeiro filme de putaria que vi, pelo menos em 87 aquilo se enquadrava na minha definição de putaria.

Essa coisa da "censura: 18 anos" mobilizava a nossa esperança de um dia chegar à esse reino etário tão longínquo onde se poderia dirigir, beber e, claro, entrar no cinema ou pegar filmes daquela seção escondida na locadora.

Vi "O Lutador" (The Wrestler) agora há pouco. O Rourke está sensacional na pele de um astro decadente de luta livre. Ele é um homem que teve sucesso nos anos 80, mas que acabou a vida sozinho, atrasando o aluguel da pocilga em que vive, sendo ignorado pela filha que abandonou e despertando pouco mais do que a pena de uma stripper. Pior, um ataque cardíaco o obriga a se afastar dos ringues.

Com tanta merda na vida, ele podia ser piegas ou amargurado, mas o seu personagem The Ram (O Carneiro) é comovente porque traz um tipo de dignidade que só vem daquela resignação secreta dos perdedores.

Tirando uma fala grandiloquente no final do filme, ele se destaca é pelos silêncios ou pelas coisas banais que diz (e dizemos) na maior parte do tempo enquanto o mundo à nossa volta cumpre a sua vocação de ser uma gigantesca lata de lixo.

A trilha sonora oitentista é boa também. Há Guns, AC/DC e um monte de heavy metal. O bom e velho Slash tá em forma numa trilha incidental bastante bonita.

Também vi "Operação Valquíria". É fraco, dispensável e não mostra porque precisamos de mais um filme sobre 2a Guerra.

Terça-feira, Fevereiro 10, 2009

O memorioso

Assim como alguns pianistas contam com os olhos, André Vicente da Silva se resolve com as pontas dos dedos e uma memória prodigiosa.

Antes de Bach e Beethoven escorregarem na agilidade dos dedos nas teclas, o jovem pianista de Canoas, cego desde horas após o nascimento, precisa memorizar as partituras.

Saiba como ele faz isso, clicando aqui.

Taí um personagem que deu gosto entrevistar.

Segunda-feira, Fevereiro 09, 2009

Dizzy

Dizzy honrou o nome: como o xará Gillespie, era um sujeito da madrugada, bom de copo e louco por um rabo de saia. Meu velho chapa morreu hoje em Ponta Porã. Depois de um AVC, perdeu a visão, o olfato e a audição. Morreu sem dor, de parada cardíaca, após ser sedado pelo veterinário.

Domingo, Fevereiro 08, 2009

Vinhos, mulheres & caminhos

Entendo de vinho mais ou menos tanto quanto entendo de mulher. Isto é, quase nada.

Aprendi a fugir daqueles que te oferecem como “é bem docinho, mas é legal”. Funciona assim com as patricinhas. Isso, no entanto, não significa que renegue meus momentos em que a vida parecia depender de tomar um Sangue de Boi até a última gota.

Descobri uma meia dúzia de sabores que tornam a aventura de encher a cara mais ou menos imune à ressaca. Desculpem a franqueza, é meu critério principal. E fico por aí, sem inventar muito. Certamente um conhecedor vai rir da minha falta de imaginação, mas isso não me incomoda até porque também costuma ser irritante quando alguém desanda o falatório sobre a uva essa, a uva aquela.

É improvável que eu fique preocupado em levantar cedo enquanto tomo imprudentemente a segunda garrafa de Romanée-Conti 72 às três da manhã como tampouco sentirei saudades um dia da Scarlet Johanson balbuciando alguma coisa enquanto dorme ou sorrindo ao acordar. Sim, é claro, na casa dos 30, vamos sacando que você não vai passar a noite degustando nem uma coisa nem outra. Receio já ter aprendido a conviver com isso.

Tomo vinho por outras razões. Não pelo prazer em si mesmo, mas porque acentua um torpor suave quando pensamos em quantos caminhos existiram, quais foram as escolhas e renúncias que fizemos para chegarmos exatamente a este ponto. Isso me faz lembrar um conto do Borges que fala de um jardim cujos caminhos se bifurcam. Um torpor necessário porque nem sempre estou seguro se sou mesmo esse homem que se olha no espelho ao fazer a barba todas as manhãs. Ou esse homem que me lembro.

Há vários Gracilianos na minha memória – o que foi atropelado aos 9 anos, o que não largava de Robinson Crusoé quando descobriu que gostava de histórias, o estudante de latim, o que fumava um cigarro sentado numa mochila num pôr-do-sol irreal numa estrada estranha, o que tomou peyote num ritual. Há vários e me assusta um pouco que talvez nenhum deles guarde uma relação direta com o atual.

Talvez seja isso a vida, a passagem dos anos e olhar para trás e vermos os muitos que fomos e não nos reconhecermos. É uma cilada tentar encontrá-los vivos porque o tempo é implacável e eles já morreram.

Tomo vinho porque ele me ajuda a entender que não é ruim nem bom que todos eles tenham ficado para trás, mas porque essa languidez me ajuda a entender que não é possível congelar o mundo. Ou porque você pode estar enchendo/enxugando outro copo quando por acaso o Bob Dylan começa a cantar no rádio.

Algumas mulheres e alguns vinhos nos caem bem porque, quandos nos juntamos, não nos sentimos tão sozinhos.

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Um pouco de esnobismo:

DEFICIENTE VINO, DEFICIT OMNE: É como os romanos traduziriam/reduziriam os prolixos parágrafos anteriores sem prejuízo para o sentido. Povo complexo, mas pragmático, sabia que "se falta o vinho, falta tudo."

E a Scarlet Johanson.

Orquídea negra



Renata, em Brasília.

Sábado, Fevereiro 07, 2009

Vazio sem esperança

Saí há pouco do cinema. Vi "Revolutionary Road" ("Foi apenas um sonho", numa "tradução" sacana), filme de Sam Mendes, inspirado no romance de Richard Yates.

Nunca li o Yeats, por isso me refiro exclusivamente ao filme. É uma história perturbadora sobre a desilusão do pós-guerra.

O cenário é um subúrbio de classe média em Connecticut nos anos 50, quando os EUA vivem o idílio de desabrochar como superpotência.

Frank Wheeler (Leonardo DiCaprio) e a mulher, April (Kate Winslet), são o casal exemplar da próspera burguesia americana: têm dinheiro, vivem numa casa bonita de um subúrbio aprazível, têm filhos. O problema é que eles estão encurralados pelo desespero de uma vida sem perspectivas.

Ele sonhava em fazer qualquer coisa que o afastasse da trajetória de vendedor do pai. Ela, uma aspirante a atriz que se tornou dona de casa. O processo estabelecido os asfixia em uma paisagem prosaica, cercada por sorrisos de vizinhos solícitos que ambos odeiam. A vida se resume a isso? Eletrodomésticos, hipoteca e cadilac? Repetir mecanicamente os mesmos trajetos, gestos e conversas: no trem, o trabalho, o almoço com os colegas. Ou cuidar dos filhos e da casa. É isso?

Num dos diálogos mais significativos do filme, Frank admite a um matemático psicótico que parece ser o único a compreender o desespero da vida pacata:

- É o vazio sem esperança - diz.

- Que é o vazio todos sabem, mas é preciso coragem para admitir que não há esperança - responde o outro.

April o convence sobre venderem tudo e se mudarem para Paris e a tensão da trama se dá entre o dilema dele de torcar a segurança pelo incerto e a profunda infelicidade dela com a vida que levam. E que tensão!

DiCaprio e Winslet, que estiveram juntos em Titanic (que jamais vi), estão incríveis. Seus comportamentos neuróticos desembocam em brigas cujo objetivo não é apenas defender o seu próprio ponto de vista, mas golpear o outro de maneira tão profunda de modo a estilhaçá-lo. É um pesadelo.

Antes de deixar o cinema, vi os casais saindo e, de alguma forma, isso me assustou ainda mais porque talvez estejamos irremediavelmente apegados a uma desesperança que tem a forma de TVs de plasma e prestações a pagar.