Logradouros e nomes de família
Uma das torturas de se chamar Graciliano é ter de responder à pergunta inevitável – É Ramos? – quase toda vez que sou apresentado a alguém. O interlocutor, normalmente bem-intencionado, acha que está sendo original porque não tem obrigação de saber que ouço o gracejo desde a infância. De boa intenção o inferno está cheio.
De certa maneira, sou produto genético de uma mistura ideológica familiar tão peculiar quanto um prato de farofa com pêssego em calda. A saga das duas famílias, a materna comunista e a paterna de direita, se desdobrou no aprazível Acaraú, município litorâneo do norte do Ceará, sustentado pela pesca de lagostas graúdas.
O vermelho do Partidão só encontrou equivalente nas emoções do meu avô Edílson Rocha no alvinegro corintiano. A municipalidade decidiu homenagear-lhe a paixão pelo futebol, não as preferências políticas, após sua morte, em 1991. O estádio da cidade leva o seu nome.
Duas das ruas que ladeiam o estádio, entretanto, homenageiam parentes do meu pai: o coronel Duca da Silveira e o Major Bião da Silveira. Não, nunca foram militares de carreira, mas chefes políticos locais.
Os Silveira sempre foram contidos na hora de batizar as crianças. Profetas judeus e santos católicos predominam: há uma profusão de Joões, Carlos, Franciscos, Elias etc. A maior ousadia foi um Roberto Carlos, que por sinal entrou na justiça para deixar de ser xará do cantor. Chama-se agora Roberto Válter, o que também é um pouco esquisito.
Entre os Rocha, não. Há uma queda por homenagear intelectuais, particularmente os de esquerda. Além do Graciliano, notório comunista, minha irmã é Gabriela por causa do romance do Jorge Amado, outro simpatizante do Partidão.
Nada que se compare ao mais esquerdizante de todos, meu tio Dodô, militante do PC do B. Seu primeiro filho chama-se Che Neruda – numa improvável mistura do ícone da Revolução Cubana com o grande poeta chileno.
Ele queria porque queria que o segundo rebento chamasse Fidel, mas a mulher dele se opôs firmemente. Abriu uma concessão parcial à minha tia: o menino chama-se Gabriel (como queria a mãe), mas o tio salpicou-lhe um Lênin logo em seguida na certidão de nascimento. Gabriel Lênin, isso aí.
Na terceira gravidez, Isabel, a tia, não permitiu ingerência. A menina chama-se Vitória e isso já suscitou especulações de toda ordem na família: teria sido uma vitória pessoal da própria Isabel, que anulou tenazmente a fúria homenageadora do meu tio? Ou uma vitória do próprio capitalismo já que ela nasceu depois da queda do Muro de Berlim?
Entre os Rocha, há um tio Gutenberg e um primo Vitor Hugo, homenagem ao escritor francês que, se comunista não era, faz a delícia dos engajados ao retratar magistralmente a vida do povo francês em “Os Miseráveis”.
E dê-lhe ironia: Vitor Hugo é dentista, o Gutenberg é médico, o Che é administrador de empresas.
A tradição caprichosa da família não poupou nem os cachorros. Todas as cadelas do meu avô chamaram-se Laika, deferência inequívoca à célebre cachorra que precedeu o cosmonauta Yuri Gagarin na aventura espacial soviética.
Até que não posso me queixar da sorte.
De certa maneira, sou produto genético de uma mistura ideológica familiar tão peculiar quanto um prato de farofa com pêssego em calda. A saga das duas famílias, a materna comunista e a paterna de direita, se desdobrou no aprazível Acaraú, município litorâneo do norte do Ceará, sustentado pela pesca de lagostas graúdas.
O vermelho do Partidão só encontrou equivalente nas emoções do meu avô Edílson Rocha no alvinegro corintiano. A municipalidade decidiu homenagear-lhe a paixão pelo futebol, não as preferências políticas, após sua morte, em 1991. O estádio da cidade leva o seu nome.
Duas das ruas que ladeiam o estádio, entretanto, homenageiam parentes do meu pai: o coronel Duca da Silveira e o Major Bião da Silveira. Não, nunca foram militares de carreira, mas chefes políticos locais.
Os Silveira sempre foram contidos na hora de batizar as crianças. Profetas judeus e santos católicos predominam: há uma profusão de Joões, Carlos, Franciscos, Elias etc. A maior ousadia foi um Roberto Carlos, que por sinal entrou na justiça para deixar de ser xará do cantor. Chama-se agora Roberto Válter, o que também é um pouco esquisito.
Entre os Rocha, não. Há uma queda por homenagear intelectuais, particularmente os de esquerda. Além do Graciliano, notório comunista, minha irmã é Gabriela por causa do romance do Jorge Amado, outro simpatizante do Partidão.
Nada que se compare ao mais esquerdizante de todos, meu tio Dodô, militante do PC do B. Seu primeiro filho chama-se Che Neruda – numa improvável mistura do ícone da Revolução Cubana com o grande poeta chileno.
Ele queria porque queria que o segundo rebento chamasse Fidel, mas a mulher dele se opôs firmemente. Abriu uma concessão parcial à minha tia: o menino chama-se Gabriel (como queria a mãe), mas o tio salpicou-lhe um Lênin logo em seguida na certidão de nascimento. Gabriel Lênin, isso aí.
Na terceira gravidez, Isabel, a tia, não permitiu ingerência. A menina chama-se Vitória e isso já suscitou especulações de toda ordem na família: teria sido uma vitória pessoal da própria Isabel, que anulou tenazmente a fúria homenageadora do meu tio? Ou uma vitória do próprio capitalismo já que ela nasceu depois da queda do Muro de Berlim?
Entre os Rocha, há um tio Gutenberg e um primo Vitor Hugo, homenagem ao escritor francês que, se comunista não era, faz a delícia dos engajados ao retratar magistralmente a vida do povo francês em “Os Miseráveis”.
E dê-lhe ironia: Vitor Hugo é dentista, o Gutenberg é médico, o Che é administrador de empresas.
A tradição caprichosa da família não poupou nem os cachorros. Todas as cadelas do meu avô chamaram-se Laika, deferência inequívoca à célebre cachorra que precedeu o cosmonauta Yuri Gagarin na aventura espacial soviética.
Até que não posso me queixar da sorte.

6 Comments:
haha muito bom isso.
e você é o único Graciliano que conheço.
e concordo ... you're so lucky!
Renata.
cara, tô rachando com esse post. tá sensacional. se metade de tudo isso for verdade, vc tem uma história sensacional. impossível não pensar em pauta sobre isso! esse tio que colocou Che Neruda no filho ainda tá vivo?
abração!
Companheiro Graciliano, esse post está incrível. Adorei as histórias e renderia uma bela pauta. Vamos?
Abraços-vermelhos,
Cíntia
Vocês não deveriam achar graça nisso, não. Escrevi com resignação, não com gaiatice. O tio tá vivo, sim, deve ter os seus 50 e poucos anos e vive no Acaraú. O Che mora em Sobral junto com o Gabriel Lênin.
Matheus e Cintia só pensam naquilo (matéria)?
Graciliano
Que nomes, heim?!
A minha mãe também tem uma mania de por nomes pouco comuns nos filhos. O meu, por exemplo, numca perguntei se faz alusão ao jogador da Portuguesa ou ao carinha lá da alta costura.
O do meu irmão é moderninho: Brayan.
Agora, a minha irmã teve sorte. Minha mãe disse que sonhou que estava andando por uma rua de comercio quando viu "Kinsya" escrito em uma placa de uma das lojas. Tivemos de esperar até inventarem o google pra descobrir que kinsya é uma seda chinesa bordada com fios de ouro. Puta sorte, né? Pelo sonho poderia ser qualquer coisa, até adubo natural vendido por quilo.
Uma vez eu não aguentei. Aproveitei enquanto estava meio distraída no ateliê de costura que ela tem lá no fundo de casa e perguntei na lata: - Que história é essa de só por nomes esquisitos nos seus filhos? Ela explicou que era pra não fazerem confusão na hora da chamada, no colégio.
Como sempre fico sem argumentos quando a conversa é de supetão, só saiu um: - E quem falou que eu queria ir pro colégio?
Falow comandante, abç!
PS.: Quando tiver um filho quero que se chame "Fidel Gardel". Massa né?
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