Domingo, Fevereiro 08, 2009

Vinhos, mulheres & caminhos

Entendo de vinho mais ou menos tanto quanto entendo de mulher. Isto é, quase nada.

Aprendi a fugir daqueles que te oferecem como “é bem docinho, mas é legal”. Funciona assim com as patricinhas. Isso, no entanto, não significa que renegue meus momentos em que a vida parecia depender de tomar um Sangue de Boi até a última gota.

Descobri uma meia dúzia de sabores que tornam a aventura de encher a cara mais ou menos imune à ressaca. Desculpem a franqueza, é meu critério principal. E fico por aí, sem inventar muito. Certamente um conhecedor vai rir da minha falta de imaginação, mas isso não me incomoda até porque também costuma ser irritante quando alguém desanda o falatório sobre a uva essa, a uva aquela.

É improvável que eu fique preocupado em levantar cedo enquanto tomo imprudentemente a segunda garrafa de Romanée-Conti 72 às três da manhã como tampouco sentirei saudades um dia da Scarlet Johanson balbuciando alguma coisa enquanto dorme ou sorrindo ao acordar. Sim, é claro, na casa dos 30, vamos sacando que você não vai passar a noite degustando nem uma coisa nem outra. Receio já ter aprendido a conviver com isso.

Tomo vinho por outras razões. Não pelo prazer em si mesmo, mas porque acentua um torpor suave quando pensamos em quantos caminhos existiram, quais foram as escolhas e renúncias que fizemos para chegarmos exatamente a este ponto. Isso me faz lembrar um conto do Borges que fala de um jardim cujos caminhos se bifurcam. Um torpor necessário porque nem sempre estou seguro se sou mesmo esse homem que se olha no espelho ao fazer a barba todas as manhãs. Ou esse homem que me lembro.

Há vários Gracilianos na minha memória – o que foi atropelado aos 9 anos, o que não largava de Robinson Crusoé quando descobriu que gostava de histórias, o estudante de latim, o que fumava um cigarro sentado numa mochila num pôr-do-sol irreal numa estrada estranha, o que tomou peyote num ritual. Há vários e me assusta um pouco que talvez nenhum deles guarde uma relação direta com o atual.

Talvez seja isso a vida, a passagem dos anos e olhar para trás e vermos os muitos que fomos e não nos reconhecermos. É uma cilada tentar encontrá-los vivos porque o tempo é implacável e eles já morreram.

Tomo vinho porque ele me ajuda a entender que não é ruim nem bom que todos eles tenham ficado para trás, mas porque essa languidez me ajuda a entender que não é possível congelar o mundo. Ou porque você pode estar enchendo/enxugando outro copo quando por acaso o Bob Dylan começa a cantar no rádio.

Algumas mulheres e alguns vinhos nos caem bem porque, quandos nos juntamos, não nos sentimos tão sozinhos.

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Um pouco de esnobismo:

DEFICIENTE VINO, DEFICIT OMNE: É como os romanos traduziriam/reduziriam os prolixos parágrafos anteriores sem prejuízo para o sentido. Povo complexo, mas pragmático, sabia que "se falta o vinho, falta tudo."

E a Scarlet Johanson.

6 Comments:

Anonymous Anônimo said...

Welcome back, extrañaba a tus textos. Besotes. Cecilia.

Fevereiro 08, 2009 5:43 PM  
Blogger Agatha said...

comentei com vc e quase esqueço de comentar aqui.
Se vc morasse por aqui, dividiria o português que ganhei com vc ;)

Fevereiro 08, 2009 11:28 PM  
Anonymous Marina said...

Que vinho que nada, seu negócio é tequila paraguaio. Brincadeira. Como vc consegue ser tão fofo quando está no campo das letras?
bisu, bisu.

Fevereiro 14, 2009 10:32 PM  
Blogger Barone said...

Olá Graciliano, sublime o texto. Na correria não havia percebido a retomada do blog. Boa descoberta neste domingo. Um abraço.

Fevereiro 15, 2009 1:08 PM  
Blogger Dener Dias said...

Vinhos, mulheres e turbina de avião. Nas medidas dos meus conhecimentos ficam quase todos na mesma linha. Interessante que justo as mulheres, com as quais mais tive contato - comparando com vinho e turbina, devo relembrar - são as menos compreendidas por mim. Ah, essas mulheres...

De qualquer forma, que bom que os caminhos o trouxeram a escrever de novo no blog.

Abraço comandante

Março 02, 2009 12:24 AM  
Blogger jbortolanza said...

In vino veritas
Si bene commemini quinque sunt causae bibendi / hospitis adventus, sitis praesens et futura / et vini bonitas et quaelibet altera causa
mas depois de muito latim
e de muitos vinhos
estamos aqui
et quid?

Agosto 15, 2009 1:55 PM  

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