Sábado, Fevereiro 07, 2009

Vazio sem esperança

Saí há pouco do cinema. Vi "Revolutionary Road" ("Foi apenas um sonho", numa "tradução" sacana), filme de Sam Mendes, inspirado no romance de Richard Yates.

Nunca li o Yeats, por isso me refiro exclusivamente ao filme. É uma história perturbadora sobre a desilusão do pós-guerra.

O cenário é um subúrbio de classe média em Connecticut nos anos 50, quando os EUA vivem o idílio de desabrochar como superpotência.

Frank Wheeler (Leonardo DiCaprio) e a mulher, April (Kate Winslet), são o casal exemplar da próspera burguesia americana: têm dinheiro, vivem numa casa bonita de um subúrbio aprazível, têm filhos. O problema é que eles estão encurralados pelo desespero de uma vida sem perspectivas.

Ele sonhava em fazer qualquer coisa que o afastasse da trajetória de vendedor do pai. Ela, uma aspirante a atriz que se tornou dona de casa. O processo estabelecido os asfixia em uma paisagem prosaica, cercada por sorrisos de vizinhos solícitos que ambos odeiam. A vida se resume a isso? Eletrodomésticos, hipoteca e cadilac? Repetir mecanicamente os mesmos trajetos, gestos e conversas: no trem, o trabalho, o almoço com os colegas. Ou cuidar dos filhos e da casa. É isso?

Num dos diálogos mais significativos do filme, Frank admite a um matemático psicótico que parece ser o único a compreender o desespero da vida pacata:

- É o vazio sem esperança - diz.

- Que é o vazio todos sabem, mas é preciso coragem para admitir que não há esperança - responde o outro.

April o convence sobre venderem tudo e se mudarem para Paris e a tensão da trama se dá entre o dilema dele de torcar a segurança pelo incerto e a profunda infelicidade dela com a vida que levam. E que tensão!

DiCaprio e Winslet, que estiveram juntos em Titanic (que jamais vi), estão incríveis. Seus comportamentos neuróticos desembocam em brigas cujo objetivo não é apenas defender o seu próprio ponto de vista, mas golpear o outro de maneira tão profunda de modo a estilhaçá-lo. É um pesadelo.

Antes de deixar o cinema, vi os casais saindo e, de alguma forma, isso me assustou ainda mais porque talvez estejamos irremediavelmente apegados a uma desesperança que tem a forma de TVs de plasma e prestações a pagar.

3 Comments:

Anonymous Anônimo said...

quero muito ver o filme.
que bom que vc voltou com o blog, gosto das coisas que vocë escreve.
Beijos, Renata.

Fevereiro 08, 2009 9:19 AM  
Blogger Matheus P. said...

sensacional o post, camarada. esse é um tema do qual gosto muito, até porque estou perdendo uma cassetada de amigos para um mundo que o zeca baleiro já cantava ("já tenho um filho e um cachorro, me sinto como num comercial de margarina, sou mais feliz do que os felizes, sob as marquises me protejo do temporal"...e desemboca: "engrosso o coro dos contentes e me contento em ser banal". por isso. não existe felicidade no comercial de margarina se não a banal, sem perspectivas, sem pressão. sobre isso o contardo escreveu um belíssimo texto (me lembra de te passar depois) e tem outro ótimo filme, "a era da inocência", do canadense dennis arcand. preciso ver "revolution road" urgentemente!
abração

Fevereiro 12, 2009 11:41 AM  
Blogger Malu said...

Feliz em te reencontrar.
Beijos, Malus

Fevereiro 27, 2009 9:16 AM  

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