Vazio sem esperança
Saí há pouco do cinema. Vi "Revolutionary Road" ("Foi apenas um sonho", numa "tradução" sacana), filme de Sam Mendes, inspirado no romance de Richard Yates.
Nunca li o Yeats, por isso me refiro exclusivamente ao filme. É uma história perturbadora sobre a desilusão do pós-guerra.
O cenário é um subúrbio de classe média em Connecticut nos anos 50, quando os EUA vivem o idílio de desabrochar como superpotência.
Frank Wheeler (Leonardo DiCaprio) e a mulher, April (Kate Winslet), são o casal exemplar da próspera burguesia americana: têm dinheiro, vivem numa casa bonita de um subúrbio aprazível, têm filhos. O problema é que eles estão encurralados pelo desespero de uma vida sem perspectivas.
Ele sonhava em fazer qualquer coisa que o afastasse da trajetória de vendedor do pai. Ela, uma aspirante a atriz que se tornou dona de casa. O processo estabelecido os asfixia em uma paisagem prosaica, cercada por sorrisos de vizinhos solícitos que ambos odeiam. A vida se resume a isso? Eletrodomésticos, hipoteca e cadilac? Repetir mecanicamente os mesmos trajetos, gestos e conversas: no trem, o trabalho, o almoço com os colegas. Ou cuidar dos filhos e da casa. É isso?
Num dos diálogos mais significativos do filme, Frank admite a um matemático psicótico que parece ser o único a compreender o desespero da vida pacata:
- É o vazio sem esperança - diz.
- Que é o vazio todos sabem, mas é preciso coragem para admitir que não há esperança - responde o outro.
April o convence sobre venderem tudo e se mudarem para Paris e a tensão da trama se dá entre o dilema dele de torcar a segurança pelo incerto e a profunda infelicidade dela com a vida que levam. E que tensão!
DiCaprio e Winslet, que estiveram juntos em Titanic (que jamais vi), estão incríveis. Seus comportamentos neuróticos desembocam em brigas cujo objetivo não é apenas defender o seu próprio ponto de vista, mas golpear o outro de maneira tão profunda de modo a estilhaçá-lo. É um pesadelo.
Antes de deixar o cinema, vi os casais saindo e, de alguma forma, isso me assustou ainda mais porque talvez estejamos irremediavelmente apegados a uma desesperança que tem a forma de TVs de plasma e prestações a pagar.
Nunca li o Yeats, por isso me refiro exclusivamente ao filme. É uma história perturbadora sobre a desilusão do pós-guerra.
O cenário é um subúrbio de classe média em Connecticut nos anos 50, quando os EUA vivem o idílio de desabrochar como superpotência.
Frank Wheeler (Leonardo DiCaprio) e a mulher, April (Kate Winslet), são o casal exemplar da próspera burguesia americana: têm dinheiro, vivem numa casa bonita de um subúrbio aprazível, têm filhos. O problema é que eles estão encurralados pelo desespero de uma vida sem perspectivas.
Ele sonhava em fazer qualquer coisa que o afastasse da trajetória de vendedor do pai. Ela, uma aspirante a atriz que se tornou dona de casa. O processo estabelecido os asfixia em uma paisagem prosaica, cercada por sorrisos de vizinhos solícitos que ambos odeiam. A vida se resume a isso? Eletrodomésticos, hipoteca e cadilac? Repetir mecanicamente os mesmos trajetos, gestos e conversas: no trem, o trabalho, o almoço com os colegas. Ou cuidar dos filhos e da casa. É isso?
Num dos diálogos mais significativos do filme, Frank admite a um matemático psicótico que parece ser o único a compreender o desespero da vida pacata:
- É o vazio sem esperança - diz.
- Que é o vazio todos sabem, mas é preciso coragem para admitir que não há esperança - responde o outro.
April o convence sobre venderem tudo e se mudarem para Paris e a tensão da trama se dá entre o dilema dele de torcar a segurança pelo incerto e a profunda infelicidade dela com a vida que levam. E que tensão!
DiCaprio e Winslet, que estiveram juntos em Titanic (que jamais vi), estão incríveis. Seus comportamentos neuróticos desembocam em brigas cujo objetivo não é apenas defender o seu próprio ponto de vista, mas golpear o outro de maneira tão profunda de modo a estilhaçá-lo. É um pesadelo.
Antes de deixar o cinema, vi os casais saindo e, de alguma forma, isso me assustou ainda mais porque talvez estejamos irremediavelmente apegados a uma desesperança que tem a forma de TVs de plasma e prestações a pagar.

3 Comments:
quero muito ver o filme.
que bom que vc voltou com o blog, gosto das coisas que vocë escreve.
Beijos, Renata.
sensacional o post, camarada. esse é um tema do qual gosto muito, até porque estou perdendo uma cassetada de amigos para um mundo que o zeca baleiro já cantava ("já tenho um filho e um cachorro, me sinto como num comercial de margarina, sou mais feliz do que os felizes, sob as marquises me protejo do temporal"...e desemboca: "engrosso o coro dos contentes e me contento em ser banal". por isso. não existe felicidade no comercial de margarina se não a banal, sem perspectivas, sem pressão. sobre isso o contardo escreveu um belíssimo texto (me lembra de te passar depois) e tem outro ótimo filme, "a era da inocência", do canadense dennis arcand. preciso ver "revolution road" urgentemente!
abração
Feliz em te reencontrar.
Beijos, Malus
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