Quando chega o final do ano e surgem as retrospectivas, jornalistas e leitores parecem algemados num tipo de sentimento mórbido: os primeiros as escrevem, os segundos as lêem. Crédulos ou cínicos diriam que a retrospectiva é como sistematizar um pedacinho da história.
Na verdade, é só uma saída sagaz na pior semana do ano, quando a pauta mingua. As fontes viajaram? Está todo mundo enchendo a cara e você de plantão? Não tem um mísero assunto sobre o qual escrever? Não tem problema, requente-se o que já foi publicado.
Retrospectiva é isso, uma espécie de atestado (sim, eu estava vivo e me lembro disso). No caso de 2006, tivemos um ano inexpressivo. Inexpressivo não, foi um ano de merda mesmo.
A minha lista:
1.
YOUTUBE: Quem passou 2006 diante do computador vagabundeou um bocado no Youtube. A tão-sonhada integração da tv com a internet acabou resultando no site que é, sim, um fenômeno tanto para a democratização da informação quanto para a banalização dela. Sempre teve vídeo na internet, mas o Youtube tem o mérito de juntar tudo no mesmo lugar. Nele, curtas independentes conviveram com a Cicarelli naqueles pulinhos legais dentro do mar. Eu lambi os beiços: aquele show do Metallica na União Soviética em 91, séries dos anos 80, o Kiss junto de novo em NY e, claro, o bambu do Sílvio Santos.
2.
OS INFILTRADOS foi o melhor filme do ano e isso não quer dizer absolutamente nada porque não houve nada particularmente importante no cinema. O Scorcese fez um bom filme sobre máfia com Jack Nicholson no seu melhor.
Munique, do Spielberg, também esteve um pouco acima da média. Gostei também de
Match Point,
Syriana e
Boa Noite e Boa Sorte. Musa do ano: Scarlet Johanson naquele trigal dourado em Match Point...
3.
VOLVER: Não gosto de anos em que o
Almodóvar lança filmes porque sou obrigado a recusar convites para ir ao cinema. Antes alegava algum compromisso e mudava de assunto. Este ano não, mudei de estratégia. Digo que já vi e se me perguntam como foi...“A personagem principal é uma mulher muito forte, de muita fibra, o filme faz uma discussão de sexualidade não-convencional e, claro, tudo isso apresentado com aquelas cores fortes...” Só dá certo porque o Almodóvar é repetitivo. A pessoa diz “é isso mesmo” e sai contente.
4.
CONGRESSO: Ok, é chavão se queixar do Congresso, mas este ano suas excelências conseguiram ser especialmente desprezíveis. Por causa de picuinhas conseguiram votar o Orçamento apenas em abril, atrasando em quatro meses a execução dos investimentos federais era algo inimaginável, mesmo para quem conhece a aptidão de deputados e senadores para o escárnio. Não bastasse ainda tivemos 120 sanguessugas descobertos e nenhum declarado. Destaque para a prata da casa:
João Grandão (PT) recebeu R$ 15 mil em depósitos de assessores, perdeu a eleição.
Waldemir Moka (PMDB) escapou: no depoimento à Justiça Federal, Vedoin disse que acertou uma propina com Moka, mas que não chegou a pagar...
5.
ZIDANE é o maior jogador que vi em campo desde Maradona. Com jogadas luminosas nos lembrou que ainda é possível alguma mágica no futebol: aqueles passes e o chapéu na partida contra o Brasil, aquele pênalti na final...Uma cabeçada não ofusca o brilho do talento.
6.
MAIS DO MESMO: Lula levou a eleição. Venceu bem. Ainda hoje estava lendo o discurso de posse do Arthur Bernardes (1922-1926) e os principais temas eram
controle da inflação e
rigor fiscal. Há quem diga “é isso mesmo” e saia contente.
7.
TRINDADE: Zeca deixará o governo após 8 anos e fez passar uma
pensão de R$ 22,1 mil. Londres Machado também se aposentou e passará a receber
dois salários de deputado (R$ 19,5 mil). André Puccinelli ainda não é governador, mas já controla a Assembléia a ponto de aprovar uma reforma administrativa que aumenta o número de cargos em comissão ao invés de os cortar como prometeu na campanha e
aumentar os impostos sobre produtos “supérfluos” como telefone e internet.
8.
STROESSNER E PINOCHET morreram sem serem julgados pelas atrocidades que suas ditaduras cometeram. Ah, claro,
Saparmurat Niyazov deixou a presidência do Turcomenistão.
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E a lista de vocês?