O DICIONÁRIO DO DIABO
ADMIRAÇÃO, n. Nosso polido reconhecimento da semelhança de alguém com nós mesmos.
AUSENTE, adj. Indivíduo peculiarmente exposto aos dentes da detração; vilificado; inevitavelmente errado; substituído na consideração e afeição de outro.
BACO, n. Divindade conveniente inventada pelos antigos como desculpa para encher a cara.
BANDEIRA, n. Trapo colorido carregado à frente de tropas e postado sobre fortes e navios. Parece ter a mesma serventia de certas placas que se vê em terrenos baldios de Londres - 'Podem atirar o lixo aqui'.
BATALHA, n. Método de desatar com os dentes um nó político que não dá pra desfazer com a língua.
BATISMO, n. Rito sagrado de tal eficácia que quem for para o céu sem ter passado por ele será infeliz pra sempre. É feito com água, de duas formas: por imersão, ou mergulho, e por aspersão, ou respingo.
BELLADONNA, n. Em italiano, uma bela mulher; em inglês, um veneno mortal. Um exemplo arrebatador da identidade essencial entre as duas línguas.
CASAMENTO, n. Cerimônia na qual duas pessoas se dispõem a se tornarem uma, uma se dispõe a se tornar nada e nada se dispõe a se tornar suportável.
CÉREBRO, n. Aparato com o qual pensamos o que pensamos. Distingue o homem que se contenta em ser alguma coisa do homem que deseja fazer alguma coisa. (...) Em nossa civilização, e sob nossa forma republicana de governo, o cérebro é tão altamente honrado que é recompensado com a isenção dos cuidados do mandato.
CIRCO, n. Lugar onde cavalos, pôneis e elefantes podem ver homens, mulheres e crianças bancando os bobos.
CIUMENTO, n. Alguém indevidamente preocupado com a preservação do que só pode ser perdido se não valia a pena manter.
CONSELHO, n. A menor moeda corrente.
CONSERVADOR, n. Um estadista enamorado dos males existentes. Distingue-se do liberal, que pretende substituir esses males por outros.
CONSOLAÇÃO, n. O conhecimento de que um homem melhor é mais infeliz do que você próprio.
CONVERSAÇÃO, n. Uma feira para exibir comodidades mentais menores, com cada demonstrador muito preocupado com o arranjo das suas próprias para observar as de seu vizinho.
CRISTÃO, n. Alguém que acredita que o Novo Testamento é um livro divinamente inspirado que é admiravelmente adequado às necessidades espirituais de seu vizinho. Segue os ensinamentos de Cristo até o ponto em que eles se tornam inconsistentes com uma vida de pecado.
CURIOSIDADE, n. Qualidade questionável da mente feminina. O desejo de saber se uma mulher está ou não amaldiçoada pela curiosidade é uma das mais ativas e insaciáveis paixões da alma masculina.
DECIDIR, v.i. Sucumbir à preponderância de um conjunto de influências sobre outro conjunto.
DESTINO, n. A autoridade de um tirano para o crime e a desculpa de um tolo para a falha.
DIFAMAR, n. Mentir sobre alguém. Falar a verdade sobre alguém.
DIPLOMACIA, n. A arte de mentir em benefício de seu país.
EDUCAÇÃO, n. Aquilo que revela ao sábio e esconde do tolo sua falta de compreensão.
ECONOMIA, n. Comprar o barril de uísque de que você não precisa pelo preço da vaca que você não pode pagar.
ERMITÃO, n. Alguém cujos vícios e prazeres não são sociáveis.
ESCRITURAS, n. Os livros sagrados de nossa santa religião, que se distinguem dos falsos e profanos escritos em que se baseiam todas as outras fés."
ESOTÉRICO, adj. Muito particularmente abstruso e consumadamente oculto. As antigas filosofias eram de dois tipos, as exotéricas (as que os próprios filósofos entendiam apenas parcialmente) e as esotéricas (aquelas que ninguém entendia). São estas que mais profundamente afetaram o pensamento moderno e encontraram maior aceitação em nossos tempos.
EXCENTRICIDADE, n. Método de distinção tão barato que os tolos o empregam para acentuar sua incapacidade." "FÉ, n. Crença sem evidências no que é dito por alguém que fala sem conhecimento de coisas sem fundamento.
FINANÇAS, n. Arte ou ciência de administrar receitas e recursos em proveito de quem administra.
GATO, n. Um autômato suave e indestrutível criado pela natureza paa ser chutado quando as coisas vão mal no círculo doméstico.
GUILHOTINA, n. Máquina que faz um francês dar de ombros com boas razões.
HERESIA, n. Sua irreverência em relação à minha divindade favorita.
HISTÓRIA, n. Relato geralmente falso de eventos geralmente desimportantes, provocados por mandantes geralmente mal-intencionados e soldados geralmente burros.
HOMEOPATA, n. Humorista da medicina.
HOMICÍDIO, n. O assassinato de um ser humano por outro. Há quatro tipos de homicídio: doloso, culposo, justificável e louvável, mas não faz muita diferença para quem morreu ter caído por causa de um ou outro tipo - a classificação é para o bem dos advogados.
IDIOTA, n. Membro de uma grande e poderosa tribo cuja influência nos assuntos humanos sempre foi dominante e controladora. A atividade de um Idiota não está confinada a nenhum campo especial do pensamento ou da ação, mas 'permeia e regula o todo'. Ele tem a última palavra em tudo, e sua decisão é inapelável. Define as modas e as opiniões sobre o gosto, dita os limites do discurso e circunscreve a conduta com um limite de tempo."
IMPUNIDADE, n. Riqueza.
IRRELIGIÃO, n. A principal das grandes fés do mundo.
LONGEVIDADE, n. Extensão incomum do medo da morte.
MÃO, n. Instrumento singular usado no final do braço humano e geralmente enfiado no bolso de alguém.
MARIDO, n. Alguém que, depois das refeições, é incumbido de lavar os pratos.
MATAR, v.t. Criar uma vaga sem nomear sucessor.
NASCIMENTO, n. Primeiro e mais cruel de todos os desastres. Na natureza dele, parece não haver uniformidade. Cástor e Pólux nasceram de um ovo. Palas Atena nasceu de um crânio. Galatéia já foi um bloco de pedra. Peresílis, que escreveu no século 10, afirma que nasceu do chão onde um padre havia derramado água benta. Sabe-se que Arimaxus derivou-se de um buraco na terra feito por um relâmpago. Leucômedo era filho de uma caverna no Monte Etna, onde eu mesmo vi um homem sair de dentro de uma adega.
SEGURO, n. Engenhoso jogo de azar moderno em que se permite que o jogador desfrute da confortável convicção de que está ganhando do homem que administra a mesa.
TINTA, n. Maligno composto de tanogalato de ferro, goma arábica e água, principalmente usado para espalhar a infecção da idiotia e promover crimes intelectuais. As propriedades da tinta são peculiares e contraditórias: pode ser usada para fazer e desfazer reputações; para denegrir e para esclarecer; mas ela é mais geralmente e aceitavelmente empregada como cimento para unir as pedras de um edifício de fama, e como cal para esconder depois a má qualidade do material.
VIDENTE, n. Pessoa, normalmente mulher, que tem o poder de ver o que é invisível para seu consulente, ou seja, que ele é um idiota.
VOTO, n. Instrumento e símbolo de um homem livre para se fazer de bobo e destruir seu país.
