Sábado, Abril 29, 2006
SOCIAIS
Ainda da sexta-feira, depois da Festa da Lingüiça de Maracaju, consegui chegar a tempo para a festa de casamento do Márcio “Pindim” Breda e da Ivanise – casal mui distinto que tive a alegria de conhecer no ano passado. Quando fui para o Campo Grande News no ano passado, a Iva, que estava na reportagem, estava de saída. Semanas depois, o Márcio foi contratado.
Tinha um currículo daqueles: sabia tudo de Kiss, tinha passado pela heróica banda Maria Tontera e era um bom repórter. A gente se meteu em algumas confusões juntos, como nas matérias sobre a máfia da federação de futebol.
Ficamos sócios de putaria quando fizemos algumas reportagens sobre pornografia. O assunto rendeu tiradas como: “(...) parte do orgasmo da contabilidade das vídeo-locadoras é proporcionada por clientes que vão àquela sessão mais discreta (...)”.
O Márcio sabe tudo. Até casar com estilo: a banda Beatlemaniacs está em plena forma com impecável repertório daqueles quatro rapazes de Liverpool. Quando falo em impecável quero dizer isso mesmo: tocaram dos hits populares a algumas bem ‘lado b’.
Como já estava soltinho, soltinho por causa de uma boa meia garrafa de Johnny preto, dancei pra caramba com a Marta, a Dilma e a Marina, revi gente muito querida, contei piadas fracassadas e até cantei um pedacinho do bolero que ando escrevendo para a Inara.
Há de me acompanhar ao leito de morte a doce memória de dançar “Yesterday” com o rosto colado ao da Maristela Brunetto – que está mais linda do que de costume (se é que isso é possível). Não a via desde que ela tirou férias e se mandou pra Bahia.
Ganhei a semana.
Tinha um currículo daqueles: sabia tudo de Kiss, tinha passado pela heróica banda Maria Tontera e era um bom repórter. A gente se meteu em algumas confusões juntos, como nas matérias sobre a máfia da federação de futebol.
Ficamos sócios de putaria quando fizemos algumas reportagens sobre pornografia. O assunto rendeu tiradas como: “(...) parte do orgasmo da contabilidade das vídeo-locadoras é proporcionada por clientes que vão àquela sessão mais discreta (...)”.
O Márcio sabe tudo. Até casar com estilo: a banda Beatlemaniacs está em plena forma com impecável repertório daqueles quatro rapazes de Liverpool. Quando falo em impecável quero dizer isso mesmo: tocaram dos hits populares a algumas bem ‘lado b’.
Como já estava soltinho, soltinho por causa de uma boa meia garrafa de Johnny preto, dancei pra caramba com a Marta, a Dilma e a Marina, revi gente muito querida, contei piadas fracassadas e até cantei um pedacinho do bolero que ando escrevendo para a Inara.
Há de me acompanhar ao leito de morte a doce memória de dançar “Yesterday” com o rosto colado ao da Maristela Brunetto – que está mais linda do que de costume (se é que isso é possível). Não a via desde que ela tirou férias e se mandou pra Bahia.
Ganhei a semana.
A LINGUIÇA E O IMPONDERÁVEL
Tenho na ponta da língua uma meia dúzia de razões para explicar porque me tornei repórter. Algumas mais pomposas (‘a democracia precisa de bom jornalismo’), outras menos rebuscadas (‘para ficar de olho nos canalhas’) e ainda algumas sob medida para atender o gosto do interlocutor – principalmente, se ele for da família. Também consigo pensar em outros tantos motivos para largar correndo essa vida e sair em busca disso que chamam de emprego respeitável. Todas elas carregam alguma dose de verdade.
Mas são noites como a de ontem que me dizem o quanto vale a pena ser repórter. Gosto mesmo é do imponderável.
A insensatez em forma de linguiça
Saí de casa com uma pauta e a firme disposição de dar minha contribuição ao que o Mestre Mauro Silveira chama de “vício declaratório na imprensa brasileira”. Em outras palavras, ia para a Festa da Lingüiça de Maracaju, a 150 km de casa, para escrever uma matéria reportando que o vice-governador disse isso, o prefeito tal disse aquilo...Saí de casa com o propósito inabalável de ser o mais vagabundo e preguiçoso possível.
Tinha ainda uma razão adicional para me comportar de modo vergonhoso: como ando numa dieta alimentar taleban, sem comer carne vermelha há mais de mês, ir a uma festa da lingüiça é sofrimento na certa.
Mas, como cheguei antes, decidi ir atrás de entender como é que uma cidade pode se orgulhar por fabricar um determinado tipo especial de lingüiça idiota. Conversei com gente que faz a lingüiça, com gente que come a lingüiça desde pequeno, com gente especializada em assar. João Karlonga, um açougueiro de 42 anos que fabrica a miserável desde os 18, me explicou:
- É só carne de primeira: picanha, filé, alcatra. Tudo picado miudinho, com pouquíssima gordura...
- Mas não lhe corta o coração pegar uma carne nobre dessas, cortar e enfiar dentro de uma tripa??? – Perguntei indignado com a idéia de aborto do filé imenso e suculento com um copo de um bom tinto.
O miserável deu de ombros. Um a zero pra ele.
A lingüiça é temperada ainda com suco de laranja azeda, sal e pimenta vermelha batida. Depois de tanta insensatez, comecei a me interessar e, uma vez identificada a composição da lingüiça, saí atrás da história para entender como é que essa heresia com carne fina ganhou estatuto de iguaria.
Mário Aniz, 68 anos vividos se empanturrando de lingüiça, me explicou que foi quase acidental. Nos anos 20, como os primeiros moradores de Maracaju não queriam ver apodrecer a carne nem reduzir a charque os melhores cortes do boi, resolveram então fazer a lingüiça. O suco de laranja azeda e o sal agiam como conservantes. Por artes do improvável, nas décadas seguintes, mesmo com o advento da geladeira, aquilo deixou de ser considerado desperdício e virou tradição.
Em tese é isso, essa a história da lingüiça que transforma Maracaju neste final de semana na Disneylândia de 20 ou 30 mil glutões de todo o Mato Grosso do Sul. Rendeu essa matéria.
Ledesma
Já com uma boa história não planejada na mão, fui para o parque de exposições esperar o início da solenidade de abertura – essa, sim, a pauta que me levara a Maracaju. Estou ali de bobeira perto de um monte de políticos e autoridades mais exóticas do interior de Mato Grosso do Sul quando vejo um velho careca falando alguma coisa do quanto cachaça é divertida pra um adolescente maltrapilho. Estava tirando sarro, obviamente. O sotaque argentino, o violão, as roupas, a careca...Não, não pode ser. Cheguei perto e era mesmo. Ponto para o imponderável. Pois é.
Desde menino escuto Dante Ramón Ledesma. O homem é uma verdadeira legenda da música latino-americana. Autor de grandes canções e intérprete de outras tantas do cancioneiro folclórico do continente. Homem de esquerda, asilou-se no Brasil quando os generais tomaram a Casa Rosada.
Puxei conversa. Bloco de anotações na mão, o papo fluiu como acordes de uma guitarra nervosa: a música tradicional, a carreira, a situação miserável dos índios, o significado de Evo Morales na Bolívia, os governos da esquerda na Venezuela e Brasil, uma globalização cultural e, claro, a surpresa com Kirchner não ser afinal a rematada porcaria que todos esperavam.
Depois do grande papo, ele foi ao palco. Orellano, Galopeira. Quase tive um treco ao ouvir El Condor Pasa – a que seria a mais antiga canção composta na América do Sul, a mais de 300 anos.
Braço a torcer
Tenho que me resignar: ganho pouco, rodo 150 km pruma pauta de políticos falando sobre lingüiças, mas acabo conhecendo o Dante Ledesma e quebrando o regime para descobrir que a insensatez culinária de Maracaju está além do meramente razoável em matéria de agradar ao paladar.
Ia ainda contar a história de Odilon de Oliveira, o garçom homônimo do eminente juiz, mas este post está longo demais. Fica pra próxima.
Mas são noites como a de ontem que me dizem o quanto vale a pena ser repórter. Gosto mesmo é do imponderável.
A insensatez em forma de linguiça
Saí de casa com uma pauta e a firme disposição de dar minha contribuição ao que o Mestre Mauro Silveira chama de “vício declaratório na imprensa brasileira”. Em outras palavras, ia para a Festa da Lingüiça de Maracaju, a 150 km de casa, para escrever uma matéria reportando que o vice-governador disse isso, o prefeito tal disse aquilo...Saí de casa com o propósito inabalável de ser o mais vagabundo e preguiçoso possível.
Tinha ainda uma razão adicional para me comportar de modo vergonhoso: como ando numa dieta alimentar taleban, sem comer carne vermelha há mais de mês, ir a uma festa da lingüiça é sofrimento na certa.
Mas, como cheguei antes, decidi ir atrás de entender como é que uma cidade pode se orgulhar por fabricar um determinado tipo especial de lingüiça idiota. Conversei com gente que faz a lingüiça, com gente que come a lingüiça desde pequeno, com gente especializada em assar. João Karlonga, um açougueiro de 42 anos que fabrica a miserável desde os 18, me explicou:
- É só carne de primeira: picanha, filé, alcatra. Tudo picado miudinho, com pouquíssima gordura...
- Mas não lhe corta o coração pegar uma carne nobre dessas, cortar e enfiar dentro de uma tripa??? – Perguntei indignado com a idéia de aborto do filé imenso e suculento com um copo de um bom tinto.
O miserável deu de ombros. Um a zero pra ele.
A lingüiça é temperada ainda com suco de laranja azeda, sal e pimenta vermelha batida. Depois de tanta insensatez, comecei a me interessar e, uma vez identificada a composição da lingüiça, saí atrás da história para entender como é que essa heresia com carne fina ganhou estatuto de iguaria.
Mário Aniz, 68 anos vividos se empanturrando de lingüiça, me explicou que foi quase acidental. Nos anos 20, como os primeiros moradores de Maracaju não queriam ver apodrecer a carne nem reduzir a charque os melhores cortes do boi, resolveram então fazer a lingüiça. O suco de laranja azeda e o sal agiam como conservantes. Por artes do improvável, nas décadas seguintes, mesmo com o advento da geladeira, aquilo deixou de ser considerado desperdício e virou tradição.
Em tese é isso, essa a história da lingüiça que transforma Maracaju neste final de semana na Disneylândia de 20 ou 30 mil glutões de todo o Mato Grosso do Sul. Rendeu essa matéria.
Ledesma
Já com uma boa história não planejada na mão, fui para o parque de exposições esperar o início da solenidade de abertura – essa, sim, a pauta que me levara a Maracaju. Estou ali de bobeira perto de um monte de políticos e autoridades mais exóticas do interior de Mato Grosso do Sul quando vejo um velho careca falando alguma coisa do quanto cachaça é divertida pra um adolescente maltrapilho. Estava tirando sarro, obviamente. O sotaque argentino, o violão, as roupas, a careca...Não, não pode ser. Cheguei perto e era mesmo. Ponto para o imponderável. Pois é.
Desde menino escuto Dante Ramón Ledesma. O homem é uma verdadeira legenda da música latino-americana. Autor de grandes canções e intérprete de outras tantas do cancioneiro folclórico do continente. Homem de esquerda, asilou-se no Brasil quando os generais tomaram a Casa Rosada.
Puxei conversa. Bloco de anotações na mão, o papo fluiu como acordes de uma guitarra nervosa: a música tradicional, a carreira, a situação miserável dos índios, o significado de Evo Morales na Bolívia, os governos da esquerda na Venezuela e Brasil, uma globalização cultural e, claro, a surpresa com Kirchner não ser afinal a rematada porcaria que todos esperavam.
Depois do grande papo, ele foi ao palco. Orellano, Galopeira. Quase tive um treco ao ouvir El Condor Pasa – a que seria a mais antiga canção composta na América do Sul, a mais de 300 anos.
Braço a torcer
Tenho que me resignar: ganho pouco, rodo 150 km pruma pauta de políticos falando sobre lingüiças, mas acabo conhecendo o Dante Ledesma e quebrando o regime para descobrir que a insensatez culinária de Maracaju está além do meramente razoável em matéria de agradar ao paladar.
Ia ainda contar a história de Odilon de Oliveira, o garçom homônimo do eminente juiz, mas este post está longo demais. Fica pra próxima.
Sexta-feira, Abril 28, 2006
CASA DOS POLÍTICOS
A idéia é da Rita Lee, mas é o caso de se pensar a respeito.
Reclamando da inutilidade dos Bigue-Bodes da vida, ela deu uma sugestão: colocar todos os pré-candidatos à presidência da República trancados em uma casa, debatendo e discutindo seus respectivos programas de governo. Sem marqueteiros, sem discursos ensaiados. Toda semana o público vota e elimina um. No final, o que sobrasse ganha o cargo. Quem sabe...
Reclamando da inutilidade dos Bigue-Bodes da vida, ela deu uma sugestão: colocar todos os pré-candidatos à presidência da República trancados em uma casa, debatendo e discutindo seus respectivos programas de governo. Sem marqueteiros, sem discursos ensaiados. Toda semana o público vota e elimina um. No final, o que sobrasse ganha o cargo. Quem sabe...
O NOME DISSO

Agências internacionais informam, citando fontes do governo iraquiano, que a sexta-feira começou bem: pelo menos 30 pessoas morreram num ataque da insurgência a uma delegacia de polícia em Baquba, a 60 km de Bagdá. Seriam 9 policiais e 21 insurgentes. “400 ou 500 pessoas teriam participado da ação”, diz o texto da UPI, outra agência internacional.
Ora, quando “400 ou 500” se juntam para um ataque a um prédio público de seu próprio país não dá pra chamar de terrorismo. Ou dá?
O nome mais apropriado parece guerra civil.
PS: Foto aí é da BBC.
Quinta-feira, Abril 27, 2006
ESCUTA ESSA

Não conhecia, ouvi num programa da 104, acho que o Microfonia. Eles tocarão no Fly amanhã. Ingressos a $ 5. Têm um site.
LESSA

"A opção tucana e petista não foi com o povo. Comprometeram o Brasil com o pagamento de juros da dívida pública, que em 2006 beneficiará os donos da dívida com R$ 180 bilhões. Estima-se que 70% desse pagamento vão para 20 mil famílias. Em contraste, com o Bolsa-Família, em 2006, serão gastos pouco mais de R$ 7 bilhões para mais de 11 milhões de famílias. Isso é possível com a taxa de juros escandalosamente elevada praticada pelo Banco Central, para a felicidade do "mercado financeiro". O Brasil não cresce, e o desemprego é brutal; porém o clima para os grandes bancos é o mais favorável. Sua lucratividade é das mais elevadas do planeta."
Carlos Lessa, uma das inteligências que pensam o Brasil, em artigo publicado na pág.3 da 'Folha de S.Paulo' hoje.
Quarta-feira, Abril 26, 2006
V DE VINGANÇA

Imagine um estado totalitário, um messianismo cristão, cidadãos permanentemente vigiados, meios de comunicação onipresentes e controlados, intolerância com homossexuais e muçulmanos, o medo das pessoas sendo manipulado com alertas de segurança nacional ao sabor dos interesses políticos de um regime.
Imaginou os Estados Unidos da era Bush Jr.? Você não está errado, mas estamos falando de uma Inglaterra imaginária em “V de Vingança” (V for Vendetta), um dos filmes de conteúdo político mais importantes dos últimos tempos. O diretor é o estreante James McTeigue e o roteiro é dos irmãos Andy e Larry Wachowski (da trilogia Matrix).
O personagem V surgiu nos anos 80 nos quadrinhos de Allan Moore e David Lloyd. V, um homem lúgubre e mascarado, vive numa Inglaterra governada por uma ditadura ao melhor estilo da ficção de George Orwell. “1984” de Orwell, por sinal, é das referências a grande matriz da história: os membros do partido, a vigilância constante, o medo como ferramenta de controle social, a supressão de liberdades individuais e a mão de ferro do estado para esmagar a dissidência. Na HQ original, Moore e Lloyd tinham em mente a sua própria Inglaterra, mas a distopia do filme está do outro lado do Atlântico. O papel de V, que vive num subterrâneo repleto de livros e obras de arte proibidas, é instigar a população à insurgência.
É, aos olhos do regime, um vil terrorista. Tão terrorista quanto o lendário Guy Fawkes, que inspira a máscara de V. Fawkes foi o homem que tentou explodir o Parlamento inglês em 1605 e acabou condenado à forca.
As referências do filme são um coquetel da tradição libertária e humanista. Vão de Dickens a Sex Pistols; de Shakespeare, Goethe ao Fantasma da Ópera. A ideologia anarquista escorre de contrabando, naturalmente, em diálogos como o que V tem com Evey (a instigante Natalie Portman): “Um povo não deveria temer seu governo, o governo é que deveria temer o seu povo”.
Além da inteligência estão ali os outros ingredientes do qual são feitos bons filmes. Há atuações convincentes: mesmo por trás da máscara, Hugo Weaving (o agente Smith, de Matrix) consegue ser emotivo; Portman vai muito bem depois de comer o pão que o diabo amassou na prisão; e Roger Allam encarnou muito bem o apresentador de tv ultradireitista Lewis Prothero. Aliás, qualquer semelhança com o Arnaldo Jabor é mera coincidência.
Tecnicamente não deixa a desejar. O filme tem menos ação do que cérebro, a Londres é lúgubre e predominam as sombras, talvez fiel aos quadrinhos. A cena do ‘batismo de água’ de Evey é magnífica do ponto de vista fotográfico. Numa das cenas em que V e policiais se enfrentam, a velocidade foi super-reduzida e o efeito visual lembra muitíssimo o final de Matrix (o duelo de Neo com os agentes no metrô). Há algo verdadeiramente deslumbrante: o Parlamento explodindo ao som de “1812” de Tchaikovsky. Ah...e tem o final, mas esse eu não conto.
Deixei o cinema bastante pensativo. E deliciado.
Terça-feira, Abril 25, 2006
MULHER PROBLEMÁTICA

É em noites como a de ontem que entendo a razão do Roda Viva estar a quase 20 anos no ar. Markun e cia. foram para La Paz entrevistar o presidente Evo Morales, que completara 90 dias de inquilinato na Plaza Murillo. Em termos de novidades, não foi assim uma Brastemp. Basicamente, o presidente reafirmou várias das posições que já expressara em ocasiões anteriores - na campanha ou já no exercício do cargo.
Na cantilena: defesa do plantio tradicional da coca, a pretensão de pôr um cabresto nas múltis que exploram os recursos energéticos, a construção de um novo pacto social mais favorável à imensa massa de miseráveis e as relações com as bases sociais - em especial com setores liderados por gente como o trepidante Felipe Quispe (que deu 90 dias de prazo para nacionalizar todas as reservas de gás). E, claro, pau no neoliberalismo. Foi tudo mero repeteco? Sim, mas não foi inválido.
Evo Morales vale por si, pelo que representa. É o primeiro presidente indígena de um país majoritariamente indígena. Morales é um aymara, uma das principais etnias que compõe a população. Filho de uma família de agricultores pobres, ele foi alçado ao poder como líder do movimento cocaleiro e do partido MAS (Movimento ao Socialismo).
Quando lhe perguntaram qual havia sido o adversário mais implacável dos primeiros 90 dias, se os desastres naturais ou a imprensa de oposição, Morales foi direto dizendo que o que mais toma tempo de um presidente da Bolívia é a corrupção. E disparou: "E a corrupção na Bolívia tem a mão de muitos brasileiros..." Usou como exemplo a EBX, holding controlada pelo empresário Eike Batista, que estava construindo uma indústria siderúrgica ilegalmente em Puerto Suárez, na fronteira com Corumbá (MS).
O presidente afirmou que, embora estivesse sendo erguido no centro do Pantanal, o empreendimento não tinha sequer licença ambiental, processaria os minérios bolivianos para exportá-los pela hidrovia Paraguai-Paraná sob um regime tributário praticamente nulo. (*)
E assim Evo foi sendo testado, pergunta a pergunta, até a derradeira do apresentador Paulo Markun. O jornalista lembrou que a longevidade dos políticos na presidência boliviana não costuma ser lá uma tradição andina, perguntando sutilmente se ele achava sinceramente que conseguiria passar os quatro anos implementando o seu programa de governo.
A resposta veio em partes. A fonte da pressão popular que depôs dois presidentes de linhagem neoliberal em 2003 vem exatamente dos 70% da população de origem indígena que compõem a base social do presidente. Ou seja, sua governabilidade passa primeiro pelos movimentos sociais organizados e pelo povo mais pobre.
E o arremate com gozação: "...e, além do mais, eu e o Álvaro García [Linera, vice-presidente e principal intelectual do MAS], que somos solteiros, nos casamos com a Bolívia; como manda a tradição andina, o marido deve cuidar muito bem de sua esposa..."
Boa entrevista não pelo que revelou, mas pelo que reafirmou.
(*) Hoje o Eike Batista começou a fazer as malas. A EBX já está desmontando o seu aparato na Bolívia e deve levar a controvertida siderúrgica ou para a vizinha Corumbá ou para o Amapá ou para o Paraguai, como informa a Agência Estado.
CANGACEIRO RELOADED

Depois de algum tempo de silêncio, acho que voltamos ao ar. Deixamos a hospedagem antiga por dificuldades operacionais com a Globo.com e agora aderimos a um provedor internacional. A idéia é retomar os princípios do primeiro Cangaceiro do Cerrado: notas curtas, política, jornalismo, cultura e muita, mas muita picaretagem.
Como é possível perceber, agora vocês podem até reclamar de mim publicamente graças ao sistema de comentários que fica no pé de cada nota.
Vamos ver até onde iremos com isso.
