Sábado, Outubro 24, 2009

Bergman, Josino e nós



O drama tricolor é psicológico.

Perder uma final da Libertadores é sempre dramático. É como chegar aos portões da glória e perceber que esqueceu a chave em casa. Hoje, o time agora está na ante-sala do rebaixamento, tragédia grega mesmo.

Tudo se parece a um filme de Bergman, no qual de um único momento depende o futuro de toda a humanidade. Fred daria um bom personagem, sempre se perguntando daqui para frente o que poderia ter sido de sua vida se tivesse feito aquele gol no Fla-Flu.

Torcer pro Fluminense é uma paixão complexa. Exige manter uma certa dignidade mesmo diante das tormentas da vida.

Larissa Magrisso nos apresenta Josino, um tricolor cuja fidalguia é comovente.

Suas assertivas lembram bolas batidas de primeira, graciosas, fulminantes e leves do saudoso Romerito nos anos 80.

Quando um padre pergunta qual a fé que professa no leito de morte, Josino responde: "Fluminense".

Para ler a história, clica aqui.

Quinta-feira, Outubro 22, 2009

Legendas

Um amigo pediu pra eu revisar um currículo que ele enviaria para uma vaga temporária do Exército.

Na parte dos objetivos, pra impressionar, ele dizia: "(...)Atuar com responsabilidade social sempre em busca de fortalecer os princípios condizentes à moral e aos bons costumes (...)"

Em tradução livre seria algo como: "Espero que o Exército seja generoso oferecendo tanto bastante dinheiro como muito tempo livre para que possa desperdiçá-los furiosamente com álcool, jogo e garotas".

Nem sempre informações muito precisas são as mais funcionais.

Sexta-feira, Setembro 25, 2009

Curtas

Para acabar com o impasse em Honduras, comissão de deputados brasileiros vai ameaçar levar senadores a Tegucigalpa.
Com o Arthur Virgílio e o Renan Calheiros jogando pingue-pongue ético, o Mão Santa gargarejando provérbios e o Suplicy cantando Bob Dylan, Micheletti e Zelaya vão suplicar por passagens para Guantanamo.

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Greves às vezes são engraçadas. A dos Correios terminou no país inteiro, exceto em Porto Alegre. Vocês poderiam dizer: ué, não faz sentido uma greve de carteiros numa única cidade quando o serviço postal está restabelecido em todos os outros 5000 municípios do país.
Pois é, o duro é convencer o comando de greve (=PSTU) que apenas deixar de entregar o Sedex em Porto Alegre pode não ser o que Marx tinha em mente quando tergiversou sobre as condições objetivas para a construção do socialismo.

Quinta-feira, Setembro 24, 2009

Pérolas da propaganda: Caninha Tegucigalpa

Roteiro: No avião, Lula e Celso Amorim jogam conversa fora a caminho da Assembleia da ONU:

Amorim: Presidente, o sr. conhece bem caninhas, quais as suas favoritas?

Lula: Ah, ministro, as de Salinas, a Sagatiba e a Ypioca são boas.

Amorim: Conhece então a Tegucigalpa, presidente?

Lula: Essa não, é forte?

Amorim: Vixe! O Zelaya tomou e capotou lá na embaixada.



Liana Pithan criou o slogan.

Quarta-feira, Setembro 23, 2009

Decadência

Receio dizer que há uma certa decadência em Ponta Porã, pequena porém valorosa cidade do Mato Grosso do Sul onde morei.
Em 2006, quando Israel invadiu o Líbano, a Câmara de Vereadores de Ponta Porã não se furtou à sua responsabilidade e aprovou uma moção "exigindo a retirada imediata das tropas israelenses do território libanês".
Notem que não foi uma simples moção de repúdio, mas uma ordem muito clara que, sem salamaleques, equivalia a dizer "deem o fora A-GO-RA".
Obviamente que faltou aprovar um encaminhamento sobre como fazer cumprir a decisão. O melhor, eu até sugeri na época numa coluna pinga-fogo que escrevia num jornal de MS, seria formar uma comissão de vereadores para esfregar a ordem de retirada na cara dos israelenses lá no front, mas isso não ocorreu.
Tudo bem, mas agora com essa confusão em Honduras, não li uma linha sobre a reação pontaporanense sobre o cerco à embaixada brasileira na imprensa internacional. Nem CNN, nem BBC, Jornal da Praça, nada. Como Ponta Porã está em silêncio, criou-se um vácuo político para os oportunistas.

Informa o blog do Fernando Rodrigues:

A Câmara dos Deputados deverá enviar um grupo de parlamentares a Honduras para acompanhar os conflitos que envolvem o retorno do presidente deposto, Manoel Zelaya, ao país e seu abrigo na embaixada brasileira. A comissão externa, comandada pelo deputado Raul Jungmann (PPS-PE), ainda pretende avaliar a situação dos brasileiros que ocupam a embaixada, que está sitiada pelas forças hondurenhas. O governo local cortou o fornecimento de energia e água para o prédio.

Um cínico poderia dizer "de graça (e recebendo diária), vou até para Tegucigalpa", mas, pensando bem, só o que faltava mesmo pra resolver a crise era uma comissão de deputados.

Agora vai!

Sexta-feira, Março 27, 2009

Imigração

http://www.youtube.com/watch?v=O7mKAJTg0yg&NR=1

Na trilha aberta por Manu Chao, o Che Sudaka canta uma Europa que as autoridades preferiam que não existisse.

Domingo, Março 01, 2009

Logradouros e nomes de família

Uma das torturas de se chamar Graciliano é ter de responder à pergunta inevitável – É Ramos? – quase toda vez que sou apresentado a alguém. O interlocutor, normalmente bem-intencionado, acha que está sendo original porque não tem obrigação de saber que ouço o gracejo desde a infância. De boa intenção o inferno está cheio.

De certa maneira, sou produto genético de uma mistura ideológica familiar tão peculiar quanto um prato de farofa com pêssego em calda. A saga das duas famílias, a materna comunista e a paterna de direita, se desdobrou no aprazível Acaraú, município litorâneo do norte do Ceará, sustentado pela pesca de lagostas graúdas.

O vermelho do Partidão só encontrou equivalente nas emoções do meu avô Edílson Rocha no alvinegro corintiano. A municipalidade decidiu homenagear-lhe a paixão pelo futebol, não as preferências políticas, após sua morte, em 1991. O estádio da cidade leva o seu nome.

Duas das ruas que ladeiam o estádio, entretanto, homenageiam parentes do meu pai: o coronel Duca da Silveira e o Major Bião da Silveira. Não, nunca foram militares de carreira, mas chefes políticos locais.

Os Silveira sempre foram contidos na hora de batizar as crianças. Profetas judeus e santos católicos predominam: há uma profusão de Joões, Carlos, Franciscos, Elias etc. A maior ousadia foi um Roberto Carlos, que por sinal entrou na justiça para deixar de ser xará do cantor. Chama-se agora Roberto Válter, o que também é um pouco esquisito.

Entre os Rocha, não. Há uma queda por homenagear intelectuais, particularmente os de esquerda. Além do Graciliano, notório comunista, minha irmã é Gabriela por causa do romance do Jorge Amado, outro simpatizante do Partidão.

Nada que se compare ao mais esquerdizante de todos, meu tio Dodô, militante do PC do B. Seu primeiro filho chama-se Che Neruda – numa improvável mistura do ícone da Revolução Cubana com o grande poeta chileno.

Ele queria porque queria que o segundo rebento chamasse Fidel, mas a mulher dele se opôs firmemente. Abriu uma concessão parcial à minha tia: o menino chama-se Gabriel (como queria a mãe), mas o tio salpicou-lhe um Lênin logo em seguida na certidão de nascimento. Gabriel Lênin, isso aí.

Na terceira gravidez, Isabel, a tia, não permitiu ingerência. A menina chama-se Vitória e isso já suscitou especulações de toda ordem na família: teria sido uma vitória pessoal da própria Isabel, que anulou tenazmente a fúria homenageadora do meu tio? Ou uma vitória do próprio capitalismo já que ela nasceu depois da queda do Muro de Berlim?

Entre os Rocha, há um tio Gutenberg e um primo Vitor Hugo, homenagem ao escritor francês que, se comunista não era, faz a delícia dos engajados ao retratar magistralmente a vida do povo francês em “Os Miseráveis”.

E dê-lhe ironia: Vitor Hugo é dentista, o Gutenberg é médico, o Che é administrador de empresas.

A tradição caprichosa da família não poupou nem os cachorros. Todas as cadelas do meu avô chamaram-se Laika, deferência inequívoca à célebre cachorra que precedeu o cosmonauta Yuri Gagarin na aventura espacial soviética.

Até que não posso me queixar da sorte.

Segunda-feira, Fevereiro 16, 2009

Nina



Há nos olhos de Marina Rahe um elogio ao indizível.

EDITADO EM 21/FEV:

Um pouco mais sobre a Nina Rahe, segundo João Gabriel de Lima, diretor de Redação da revista Bravo!

O perfil está para o jornalista assim como o retrato está para o pintor, os prelúdios de Bach para o pianista e o jogo de pernas para o boxeador. É a base que fundamenta toda a técnica - mas só depois de anos de domínio da técnica é possível executar com perfeição o fundamento. O perfil é uma reportagem centrada num único personagem. Foi a revista americana The New Yorker - berço do chamado jornalismo literário nos anos 30 e 40 - que estabeleceu as bases do estilo, e o atual diretor da publicação, David Remnick, é o hoje o mais prolífico autor de perfis da imprensa americana. No prefácio de uma coletânea de textos de Remnick, Dentro da Floresta, o jornalista e cineasta João Moreira Salles, editor da revista piauí, assim definiu o gênero: "É uma alternância entre a observação miúda e a análise geral, entre o pequeno e o grande".

Na área cultural, o perfil se reveste de uma peculiaridade. Além de contrapor o geral e o particular, ele carrega o desafio de retratar o artista em seu momento de criação - e por isso exige uma sensibilidade especial do repórter. Alguns dos destaques desta edição (fev.09) são perfis de artistas. A jornalista mato-grossense Nina Rahe teve a idéia de acompanhar o processo de criação de Antunes Filho na época em que fazia um curso de pós graduação em jornalismo literário. Seu trabalho, que pode ser lido a partir da página 86, se enquadra perfeitamente na definição de João Moreira Salles. A partir de um dado miúdo, aparentemente prosaico, anedoticamente paradoxal - o fato do diretor não saber dirigir carros - Nina radiografa a mente de um artista que gosta de ter idéias enquanto passeia a pé pela cidade de São Paulo (...)


Depois de clicar aqui e ler a matéria dela sobre o dramaturgo, você vai perceber que o elogio do diretor da revista é bastante justo.

Domingo, Fevereiro 15, 2009

Rourke

Admiro o Mickey Rourke, desde "Orquídea Selvagem" (Wild Orchid). Foi o primeiro filme de putaria que vi, pelo menos em 87 aquilo se enquadrava na minha definição de putaria.

Essa coisa da "censura: 18 anos" mobilizava a nossa esperança de um dia chegar à esse reino etário tão longínquo onde se poderia dirigir, beber e, claro, entrar no cinema ou pegar filmes daquela seção escondida na locadora.

Vi "O Lutador" (The Wrestler) agora há pouco. O Rourke está sensacional na pele de um astro decadente de luta livre. Ele é um homem que teve sucesso nos anos 80, mas que acabou a vida sozinho, atrasando o aluguel da pocilga em que vive, sendo ignorado pela filha que abandonou e despertando pouco mais do que a pena de uma stripper. Pior, um ataque cardíaco o obriga a se afastar dos ringues.

Com tanta merda na vida, ele podia ser piegas ou amargurado, mas o seu personagem The Ram (O Carneiro) é comovente porque traz um tipo de dignidade que só vem daquela resignação secreta dos perdedores.

Tirando uma fala grandiloquente no final do filme, ele se destaca é pelos silêncios ou pelas coisas banais que diz (e dizemos) na maior parte do tempo enquanto o mundo à nossa volta cumpre a sua vocação de ser uma gigantesca lata de lixo.

A trilha sonora oitentista é boa também. Há Guns, AC/DC e um monte de heavy metal. O bom e velho Slash tá em forma numa trilha incidental bastante bonita.

Também vi "Operação Valquíria". É fraco, dispensável e não mostra porque precisamos de mais um filme sobre 2a Guerra.

Terça-feira, Fevereiro 10, 2009

O memorioso

Assim como alguns pianistas contam com os olhos, André Vicente da Silva se resolve com as pontas dos dedos e uma memória prodigiosa.

Antes de Bach e Beethoven escorregarem na agilidade dos dedos nas teclas, o jovem pianista de Canoas, cego desde horas após o nascimento, precisa memorizar as partituras.

Saiba como ele faz isso, clicando aqui.

Taí um personagem que deu gosto entrevistar.

Segunda-feira, Fevereiro 09, 2009

Dizzy

Dizzy honrou o nome: como o xará Gillespie, era um sujeito da madrugada, bom de copo e louco por um rabo de saia. Meu velho chapa morreu hoje em Ponta Porã. Depois de um AVC, perdeu a visão, o olfato e a audição. Morreu sem dor, de parada cardíaca, após ser sedado pelo veterinário.

Domingo, Fevereiro 08, 2009

Vinhos, mulheres & caminhos

Entendo de vinho mais ou menos tanto quanto entendo de mulher. Isto é, quase nada.

Aprendi a fugir daqueles que te oferecem como “é bem docinho, mas é legal”. Funciona assim com as patricinhas. Isso, no entanto, não significa que renegue meus momentos em que a vida parecia depender de tomar um Sangue de Boi até a última gota.

Descobri uma meia dúzia de sabores que tornam a aventura de encher a cara mais ou menos imune à ressaca. Desculpem a franqueza, é meu critério principal. E fico por aí, sem inventar muito. Certamente um conhecedor vai rir da minha falta de imaginação, mas isso não me incomoda até porque também costuma ser irritante quando alguém desanda o falatório sobre a uva essa, a uva aquela.

É improvável que eu fique preocupado em levantar cedo enquanto tomo imprudentemente a segunda garrafa de Romanée-Conti 72 às três da manhã como tampouco sentirei saudades um dia da Scarlet Johanson balbuciando alguma coisa enquanto dorme ou sorrindo ao acordar. Sim, é claro, na casa dos 30, vamos sacando que você não vai passar a noite degustando nem uma coisa nem outra. Receio já ter aprendido a conviver com isso.

Tomo vinho por outras razões. Não pelo prazer em si mesmo, mas porque acentua um torpor suave quando pensamos em quantos caminhos existiram, quais foram as escolhas e renúncias que fizemos para chegarmos exatamente a este ponto. Isso me faz lembrar um conto do Borges que fala de um jardim cujos caminhos se bifurcam. Um torpor necessário porque nem sempre estou seguro se sou mesmo esse homem que se olha no espelho ao fazer a barba todas as manhãs. Ou esse homem que me lembro.

Há vários Gracilianos na minha memória – o que foi atropelado aos 9 anos, o que não largava de Robinson Crusoé quando descobriu que gostava de histórias, o estudante de latim, o que fumava um cigarro sentado numa mochila num pôr-do-sol irreal numa estrada estranha, o que tomou peyote num ritual. Há vários e me assusta um pouco que talvez nenhum deles guarde uma relação direta com o atual.

Talvez seja isso a vida, a passagem dos anos e olhar para trás e vermos os muitos que fomos e não nos reconhecermos. É uma cilada tentar encontrá-los vivos porque o tempo é implacável e eles já morreram.

Tomo vinho porque ele me ajuda a entender que não é ruim nem bom que todos eles tenham ficado para trás, mas porque essa languidez me ajuda a entender que não é possível congelar o mundo. Ou porque você pode estar enchendo/enxugando outro copo quando por acaso o Bob Dylan começa a cantar no rádio.

Algumas mulheres e alguns vinhos nos caem bem porque, quandos nos juntamos, não nos sentimos tão sozinhos.

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Um pouco de esnobismo:

DEFICIENTE VINO, DEFICIT OMNE: É como os romanos traduziriam/reduziriam os prolixos parágrafos anteriores sem prejuízo para o sentido. Povo complexo, mas pragmático, sabia que "se falta o vinho, falta tudo."

E a Scarlet Johanson.

Orquídea negra



Renata, em Brasília.